Morte é para o corpo; desencarnação, para o espírito. Essas
palavras, contudo, equivalem-se. Por isso se diz que fulano desencarnou, em vez de se dizer que morreu. Espíritas, somos cientes de que
a separação entre alma e corpo raramente é instantânea, donde passarmos, às
vezes, dessa equivalência a uma diferença nada técnica entre morte e desencarnação. Explico-me. Confrontando os originais, vê-se que
Kardec utilizou o substantivo désincarnation
apenas duas vezes, por mais que os tradutores o tenham feito aparecer, e a
formas do verbo désincarner, onde
nunca estiveram. Demonstro-o.
Em O Livro dos Espíritos, por
exemplo, nenhuma vez ocorre o substantivo desencarnação
(désincarnation), o verbo desencarnar
(désincarner), em qualquer de suas formas, nem mesmo o particípio
passado/adjetivo desencarnado (désincarné).
Kardec, ali, se refere ao encarnado
(incarné), reencarnado (reincarné) e não encarnado ou errante (non incarné ou errant), i. é, liberto, desprendido ou desembaraçado do corpo (dégagé du
corps). Os tradutores febianos é que sempre ousam mais...
Se não, vejamos. O Livro dos
Espíritos, (1) nota ao n. 188: “Une personne décédée”; i. é: “Uma pessoa falecida”. Guillon Ribeiro:
“um Espírito que desencarnara”;
Evandro Noleto Bezerra: “um Espírito que havia desencarnado”. Herculano Pires: “Uma pessoa falecida”. (2) n. 257: “pendant les premiers instants, l'Esprit”; i. é: “durante os primeiros instantes, o Espírito”.
G. R.: “durante os primeiros minutos depois
da desencarnação, o Espírito”. E. N. B.: “Durante os primeiros instantes, o
Espírito”. H. P.: “Nos primeiros instantes, o Espírito”. (3) n. 339: “sortie du corps”;
i. é: “saída do corpo”. G. R. e E.
N. B.: “ao desencarnar”; H. P.: “desencarnação”. (4) n. 399: “l'état d'Esprit”
e “l'état d'incarnation”; i. é: “o
estado de Espírito” e “o estado de encarnação”. G. R. e E. N. B.: “quando desencarnado” e “quando encarnado”. H.
P.: “no estado de Espírito” e “no estado de encarnado”. (5) n. 402: “à leur mort”;
i. é: “na sua morte”. G. R.: “desencarnando”; E. N. B.: “ao desencarnarem”. H. P.: “ao morrerem”. (6) n. 1014-a: “Esprits errants, ou nouvellement dégagés”; i. é: “Espíritos errantes, ou recentemente libertos”. G. R. e E. N. B.: “recém-desencarnados”; H. P.:
“recentemente libertados”. (7) O Céu e o Inferno, parte II, cap. II:
Sr. Sanson, numa nota Kardec escreve: “mais
en raison de la mort récente de M. Sanson”, i. é: “mas em razão da morte recente do Sr. Sanson”. Manuel J. Quintão: “visto que o Sr. Sanson desencarnara recentemente”; H. P.: “mas
em virtude da morte recente do Sr. Sanson”. (8) O Céu e o Inferno,
parte II, cap. II: O Doutor Demeure, a certa altura escreve Kardec: “lendemain de sa mort”; i. é: “no dia
seguinte ao de sua morte”.
M. J. Q.: “da sua desencarnação”; H.
P.: “da sua morte”, etc., etc. Essas
ousadias ao menos indicam a equivalência entre morte e desencarnação.
Kardec chegou a usar, sim, o
particípio/adjetivo desencarnado, o
substantivo désincarnation, mas nunca
o verbo desencarnar, o que coube, em
volumes da Revista Espírita, aos
espíritos Viennois (désincarnent),
Lamennais (désincarne) e Clélie
Duplantier (désincarnant).[1] Eis, portanto, os dois empregos
substantivos do mestre:
Cada
globo tem, de alguma sorte, sua população própria de espíritos encarnados e
desencarnados, alimentada em sua maioria pela encarnação e desencarnação dos mesmos [Espíritos]. Esta população é mais estável
nos mundos inferiores, pelo apego deles à matéria, e mais flutuante nos
superiores.[2]
Tal é a alma durante a
vida e depois da morte. Para ela há, portanto, dois estados: o de encarnação ou
de constrangimento, e o de desencarnação
ou de liberdade; em outras palavras:
o da vida corporal e o da vida espiritual.[3]
No primeiro contexto, desencarnação
opõe-se a encarnação, justamente como morte
a nascimento; no segundo, é o estado de liberdade, de vida espiritual. Ora, désincarnation surgiu
primeiramente numa correspondência publicada na Revista Espírita de
setembro de 1863. No texto do missivista, lê-se: “désincarnation ou mort
corporelle”, sinonímia que não mereceu de Kardec nenhum reparo.[4] As duas
ocorrências substantivas restantes pertencem aos espíritos Demeure e Clélie
Duplantier; em ambas, permanece o paralelismo com a palavra morte.
[...] quanto
mais cedo se der a sua desencarnação,
mais cedo poderá se dar também a reencarnação que lhe permitirá acabar a sua
obra [...][5]
Em geral, sendo a população mauriciana inferior, do ponto de vista moral,
a desencarnação não pode fazer do
espaço senão um viveiro de espíritos muito pouco desmaterializados, ainda
marcados por todos os seus hábitos terrenos, e que continuam, não obstante
espíritos, a viver como se fossem homens.[6]
Quando, por outra, os espíritos e Kardec trataram da intimidade do
processo quase sempre gradual da separação entre alma e corpo, ou seja, no
suceder mesmo da morte e do pós-morte,
não o fizeram sob os signos da palavra désincarnation,
e sim do vocábulo dégagement:
“desprendimento”.[7]
E não sem motivos.
O princípio espírita é que “a vida orgânica pode animar um corpo sem
alma, mas a alma não pode habitar um corpo sem vida orgânica”.[8]
Ora, após a morte, por mais demorado que o seja, o desprendimento “não implica”,
segundo o mestre, “a existência no corpo de nenhuma vitalidade,
nem a possibilidade de retorno à vida, mas a simples persistência de uma afinidade
entre o corpo e o espírito, afinidade que está sempre na razão da
preponderância que, durante a vida, o espírito deu à matéria.”[9]
O estado de encarnação, assim, pressupõe vitalidade corporal; a ausência
desta caracteriza, por sua vez, o de desencarnação. O cadáver não pode estar
mais ou menos morto; na mesma proporção, a alma não estará mais ou menos desencarnada (désincarné), e sim mais ou
menos livre, desprendida, desembaraçada
(dégagé), situação bem distinta.
Ao ocorrer a cessação da atividade do princípio vital, o corpo não mais retém a alma, embora esta, não raro, é
que insista em identificar-se à
matéria inerte. Com a morte, não há mais, no corpo, nenhuma vitalidade, todavia
pode existir, entre alma e corpo, alguma ou muita afinidade, o que gera pontos
de contato entre o cadáver e o perispírito. Entretidas que eram essas ligações
fluídicas apenas pela atividade do princípio vital, passam a ser mantidas
por uma força de aderência que, agora só devida ao espírito, o retém identificado
ao corpo, e não mais encarnado nele.[10]
Esses laços
fluídicos podem gerar uma espécie de repercussão moral que transmite ao
espírito a sensação do que se passa no corpo, muito embora, incontinenti,
Kardec esclareça que “repercussão” não é o melhor termo, por dar a ideia de um
efeito muito material àquilo que, antes, está mais para uma ilusão
que o espírito toma como realidade. Ora, neste, as sensações não
dependem mais de órgãos sensitivos; são gerais e não mais
se devem a agentes exteriores.[11]
A desencarnação só se opera com a morte; o desprendimento, já durante a
vida. A primeira depende da morte do corpo; o segundo, da elevação da alma. Durante a
encarnação, é a vitalidade do corpo que prende a alma; depois da
morte, é a afinidade da alma com a matéria que a identifica com o
cadáver. Desse modo, morte
equivale, sim, a desencarnação e
antes difere, mais propriamente, de desprendimento.
Morto o corpo, o espírito está desencarnado, sem estar, porém, necessariamente desprendido.
[1] F.E.B., mai/1863, p. 222; out/1863, p. 429;
abr/1869, p. 121.
[2] O Céu e o
Inferno. Parte I, cap. III, n. 17. F.E.B., 2003, 51.ª ed., p. 37. Grifo
meu, assim como o acréscimo da palavra “espíritos” entre colchetes. No original
francês: “mêmes Esprits”.
[3] Revista Espírita.
Jan/1866. A Jovem Cataléptica da
Suábia. Estudo Psicológico. F.E.B., 2007, 2.ª ed., p. 41. Grifos meus.
[4] Questões e
Problemas. Sobre a Expiação e a Prova. F.E.B., 2007, 3.ª ed., p. 366.
[5] O Céu e o
Inferno. Parte II, cap. II. O Doutor Demeure. Trad.: J. Herculano Pires.
[6] Revista Espírita.
Mar/1869. As Árvores Mal-Assombradas da Ilha Maurício. F.E.B., 2007, 2.ª ed.,
p. 122.
[7] O Livro dos
Espíritos, 154 a 162. O Céu e o
Inferno, Parte II, cap. I: Le Passage.
[8] O Livro dos
Espíritos. 136-a. Grifos meus. Trad.: J. Herculano Pires.
[9] O Livro dos
Espíritos. 155-a. Grifos meus. Trad. J. Herculano Pires.
[10] O Céu e o
Inferno. Parte I, cap. I, ns. 4, 5, 10 e 11. No francês: “points de
contact”; “force d'adhérence”; “liens fluidiques”.
[11] O Livro dos
Espíritos, 257. No original: “[...] Dans le corps, ces sensations sont
localisées par les organes qui leur servent de canaux. Le corps détruit, les
sensations sont générales. […] la douleur n'est pas localisée et qu'elle n'est
pas produite par les agents extérieurs: c'est plutôt un souvenir qu'une réalité
[…] il en résultait une sorte de répercussion morale qui lui transmettait la
sensation de ce qui se passait dans le corps. Répercussion n'est peut-être
pas le mot, il pourrait faire croire à un effet trop matériel […] Le
périsprit, dégagé du corps, éprouve la sensation; mais comme elle ne lui arrive
plus par un canal limité, elle est générale. […] savons qu'il y a perception,
sensation, audition, vision ; que ces facultés sont des attributs de tout
l'être, et non, comme chez l'homme, d'une partie de l'être […] Il n'en est pas de même de ceux dont le périsprit est
plus dense; ceux-là perçoivent nos sons et nos odeurs, mais non pas par une
partie limitée de leur individu, comme de leur vivant [...] inférieurs comme
supérieurs, n'entendent et ne sentent que ce qu'ils veulent entendre ou sentir.
Sans avoir des organes sensitifs, ils peuvent rendre à volonté leurs
perceptions actives ou nulles [...]”.